Segunda-feira
Amanhã
AMANHÃ
Direção, luz, imagens, edição e pós, por Marcella Virzi
Poesia e interpretação, por Maykson de Sousa
Música original, de Tomaz Secco
Som, por Arthur Fontenelle
Produção, de Camila Caiafa
amanhã
I.
O que tenho a dizer não convém. É segredo de estado. É palavra enclausurada. Mas digo, margeando este isto: amanhã. Esta palavra iluminada: amanhã.
Sonhei que estive na Itália, amanhã.
Sorri, porque você me sorria, amanhã.
Chorei, porque me lembrava o que fomos, amanhã.
Tudo é promessa e passado nesta vida inconclusa. Nostalgia.
Sempre.
Amanhã será mais fácil anoitecer.
II.
Quero o vitral antigo de uma igreja em Minas. Aquela igreja que você não viu. Quero
um dia no jardim de um castelo
de areia
e sua sombra na praia. Eu traçando-a, com o dedo,
para admirar o seu perfil efêmero
e depois dormir.
-
Maykson de Sousa
Quinta-feira
o naufrágio
o
naufrágio
I
ele sorriu
e verteu o vinho
ele sorriu
e verteu o vinho
tinto sobre o forro branco
da
mesa esfregando os dedos
úmidos na borda
dos
cálices
…......................................e os cálices
…......................................cantaram
…......................................o que era
…......................................o tempo
…......................................no crepúsculo
falávamos no cão andaluz
e naquele nosso modo
de atravessar a lua
em silêncio
…......................................o que era
…......................................o tempo
…......................................no crepúsculo
falávamos no cão andaluz
e naquele nosso modo
de atravessar a lua
em silêncio
para compreender o
agouro
dos pássaros
noturnos
II
[entretanto & depois]
dos pássaros
noturnos
II
[entretanto & depois]
alguém
tocava oboé
e nós ficávamos fluidos
…......................................um barco vazio singrava
…......................................lentamente
…......................................o nosso ventre
&
…...................................
…......................................em nosso quarto
…......................................passava um rio
…......................................como o Nilo
[era escuro, sabíamos]
nós estávamos ali
para as profundezas
e nós ficávamos fluidos
…......................................um barco vazio singrava
…......................................lentamente
…......................................o nosso ventre
&
…...................................
…......................................em nosso quarto
…......................................passava um rio
…......................................como o Nilo
[era escuro, sabíamos]
nós estávamos ali
para as profundezas
-
Maykson de Sousa.
Sculpture Untitled (Perfect lovers) by Félix González-Torres, 1991. These two identical, adjacent, battery-operated clocks were initially
set to the same time, but, with time, they will inevitably fall out of
sync. Gonzalez-Torres created this work shortly after his partner, Ross
Laycock, was diagnosed with AIDS. By assigning these redundant objects
the title "Untitled" (Perfect Lovers), the artist transformed
these public, neutral devices used for the measurement of time into
personal and poetic meditations on human relationships, mortality, and
time's inevitable flow. Of the light-blue background, Gonzalez-Torres
said, "For me if a beautiful memory could have a color that color would
be light blue." In: http://www.moma.org/collection/object.php?object_id=81074
Sábado
o risco
o risco
importa
o traço
e
a margem: a terceira margem
de
João. e a terceira margem
que
o traço propõe
entre
as margens de um papel A4.
importa
o risco
e
o desvio do risco preto
sobre
a superfície regular
.....................................e
branca
de celulose.
importa
que você não sabe
o
que significa um risco
na
vida
.....................................e mais:
importa
que
você acredite que escreve
um
nome ou desenha uma flor
quando
o faz.
-
Maykson de Sousa.
Paint by Florian Nicolle.
Sexta-feira
o discurso da Morte
o discurso da Morte
O que tens a dizer sobre mim
eu não diria sobre ninguém. Agiria, como ajo,
calada, sorrateira, e o meu intento teria um efeito
necessário para lembrar-vos (a ti, e aos outros)
que vós sois perecíveis, como o ferro.
-
Maykson de Sousa.
Paint by Takahiro Kimura.
Terça-feira
poliedro, assim
poliedro, assim
o caos
e o eco
do que foram
as
vozes
dos animais
primitivos
são o espectro
no escuro
e a nódoa
no tecido
branco
do que acredita-se
ser
também
poesia
-
Maykson de Sousa.
Quarta-feira
o que seríamos
o que seríamos. quando o gesto. depois. quando o verbo, também.
o que era poesia aos meus ouvidos eram os desenhos que você fazia e pendurava nas paredes do quarto: tudo dizendo o silêncio, por si, mas não. então você sorria por isso. e, pelo mesmo motivo, chorávamos. nós. os que já haviam sofrido, sabíamos, cantariam em sinagogas, em capelas, em mesquitas, dançariam felizes, e algo tristes, em terreiros de umbanda e candomblé no interior do piauí e na rocinha e. e outros fariam bruxarias. tudo porque a morte. tudo. e, exatamente porque a morte, também, a filosofia. o que o homem erigiu para si. a roda. o vinho. o sexo tântrico. o espelho. e qualquer adereço. enfim. […] a gente saberia dizer, sem dizer, contudo, se nenhum dos nossos gestos já fosse corrompido. a gente saberia cantar deus em uníssono. precisamente o que não existe entre nós. a gente não se perfumaria. e comeria carne crua de rã. rezaríamos em tupi. falaríamos hebraico e latim com os cães. recitaríamos, para viver mais e melhor - ou justamente o contrário - versos de safo em grego arcaico. quando quisesse encarnar, quando o verbo, transaríamos em praça pública, ao meio-dia. esporraríamos nos santos. e não haveria nenhuma culpa em nós. entenda-me, compreendo: um ponto final, para você, e para mim, é um planeta pequeno, é um planeta grande, visto de longe. e a lua.
_
Maykson de Sousa.
Paint by Vasiliy Godzh.
Terça-feira
para ser bem pontual
para ser bem pontual
todonossocorpo veio abaixo.
estamos arruinados, meu amor.
nossa história foi por acaso
e é só isso que nos restou.
o devir vem com a aurora, ao entardecer.
entretanto, e entre tantos, a noite já chegou.
o breu veio sem nuanças.
tudo é desassossego
por aqui
já não se fala na sabedoria dos deuses.
só isto pode ser nossa prece.
_
Maykson de Sousa.
Fotografia de Robert Mapplethorpe, with gauze, 1984.
Segunda-feira
alguma poesia deve ser adequada

alguma poesia deve ser adequada
Alguma poesia deve ser adequada
para um dia de chuva no qual se resolve chorar
– de um jeito esquisito – a passagem do ano
que acontecerá só daqui a quase dois meses.
Você lembra um verso de cor, mas o verso não calha.
Você faz uma prece um pouco engasgada, porque o ano
foi de alegrias, mas também de ressentimentos,
descrenças, quinquilharias esconsas para se resolver
com sessões de terapia e boa prosa com amigos
em alguma mesa de bar. Você diz "amanhã"
– com a mesma força com que escreveu, no dezembro passado,
um poema dolorido e crente. Você pensa em vinho,
pensa em flor de laranjeira, pensa em chá de camomila ou,
para ser mais alopático, pensa em Lexotan.
Você se apaixona, e se apaixona pela ideia
de estar apaixonado. Você dá um sorriso
e cochila. Depois olha pela janela
e pensa que essa maldita ideia não é mesmo fácil.
E então você escreve um poema ruim
porque não tem coragem de procurar
outro poema, de alguém mais preciso
e célebre, que preencha este buraco.
E, ainda assim, nada se resolve.
O que virá depois, ninguém sabe.
-
Maykson de Sousa.
Tela: Lou Ros, John Mobit, da série Rouge Anglais.
Quinta-feira
Nota para uma manhã de novembro
Nota para uma manhã de novembro
Así espero que me comprendas:
me gustan estos días en los que nuestra mirada
puede más que mirar.
-
Maykson de Sousa.
Tela de Paul Cézanne, Homem fumando cachimbo, c. 1895.
Quarta-feira
prece de um dia quase igual a todos
prece de um dia quase igual a todos
Deus dos delicados, não me abandone nessa guerra insana.
Minha máquina de ser beira a pane enquanto o veludo da voz de Billie
lambe as paredes do lusco fusco.
Abençoe, senhor, tudo que dói em nós, indispensável.
As tardes despenteadas em Grumari,
as lágrimas do homem que me amou e nunca disse,
o negro agonizante sob o sol narcísico de Ipanema,
as crianças que tão cedo me deixaram farta de lágrimas e leite,
ecos esquivos, sinais de musgo.
Abençoe as escarpas da minha vida
enquanto desenterro estas palavras - o carmim destas palavras -
com as lascas afiadas da dor.
Sonho piscinas, atraída pelas labaredas.
Preciso dormir bem dentro das suas asas enormes, pai.
-
Ledusha Spinardi.
Tela de Lou Ros.
nada mais que poder caminhar
não mais que caminhar
Não mais que caminhar
entre laranjeiras
para colher 'azahares' matinais.
É deste abismo que falo?
Mais é a noite, e a vida que vaga,
sem cochilar por detrás de muralhas,
sem construir ninhos, sem praguejar
o dia que retém, de si, no instante
das sombras, o contorno.
Mais é o breu. Mais
e ninguém.
-
Maykson de Sousa.
Segunda-feira
o estranho
o estranho
e ao transpassar as fronteiras
invisíveis
soube-se íntimo
e estranho. Não ousou
o reflexo do rosto contido
nas águas, tampouco quis o sussurro das preces.
Só
queria o sonho perdido
vertido em poucas palavras.
Mas o escopo do sonho é o tempo.
E o menino seguia os ventos
furtivos.
-
Maykson de Sousa.
Sábado
o espectro
o espectro
O espectro derrocado movimenta as águas limosas.
Você quer me tirar do abismo, meu bem?
Mas meus ossos são pesados como âncoras
e você é sozinho demais
para me içar daqui.
-
Maykson de Sousa.
Fotografia do mexicano Gerardo Montiel Klint, Ofelio.
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Terça-feira
harry potter, de Adélia Prado
harry potter
Quando era criança
escondia-me no galinheiro
hipnotizando galinhas.
Alguma força se esvaía de mim,
pois ficávamos tontas, eu e elas.
Ninguém percebia minha ausência,
o esforço de levantar-me pelas orelhas,
tentando o maravilhoso.
Até hoje fico de tocaia
para óvnis, luzes misteriosas,
orar em línguas, ter o dom da cura.
Meu treinamento é ordenar palavras:
Sejam um poema, digo-lhes,
não se comportem como, no galinheiro,
eu com as galinhas tontas.
-
Adélia Prado.
Fotografia de Christophe Agou, Untitled, da série Facing silence (2002-2010).
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Quinta-feira
depois de Bach
depois de Bach
“Eu escuto a cor dos passarinhos.”
Manoel de Barros
Manoel de Barros
Acontece que eu ouço o descampado
que é lá no dentro do mundo
que é no dentro de mim. Eu temo.
É com certo pavor que eu ouço
o vazio. Mas é com a ternura
de um menino cantando perdido
num bosque inventado e com chuva.
É assim que eu declaro que eu sei
tão pouco dos rios e que eu não posso
ouvir sem chorar um prelúdio
de Bach para cello.
Meu medo estranho é sentir
com meu dedo o segredo das conchas
e barcos vazios que dormem
no escuro afora de mim.
Meu medo e meu sonho
que é turvo — que é curvo —
e voeja meu canto
como passarinho sem vento
e vinho sem cor.
-
Maykson de Sousa.
Caminho sem pés e sem sonhos, de Daniel Faria
caminho sem pés e sem sonhos
Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.
os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe
de caminhar sobre as águas do céu.
-
Poema de Daniel Faria. Tela de Claudia Fontes, Reconstrucción del retrato de Pablo Míguez.
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Segunda-feira
Dispositivo cinematográfico - La beauté des images
Apresentando a performer e artista visual Gabriela Queiroz
Direção e roteiro: Cláudia Cárdenas
Direção de fotografia e edição: Rafael Schlischting
Câmera 2: Marina Borck
Direção de arte: Maurício Muniz
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Quarta-feira
Sábado
agora que você veio
agora que você veio
agora que você veio
talvez eu resolva o poema
agora que a água do copo já derramou
no lençol e a aspirina já aliviou a ressaca
-
Maykson de Sousa.
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poesia
Quinta-feira
Sábado
para vingar depois
para vingar depois
Ariadne não vai nos socorrer, meu amor.
E, por isso, nada pode ser mais honesto e redentor
que um verso de Rita Lee: "tudo vira bosta", meu bem.
Vamos todos à merda! Alimentaremos os nossos jardins.
Amém.
-
Maykson de Sousa.
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Segunda-feira
pense duas vezes antes de esquecer
pense duas vezes antes de esquecer
I
É certo, meu amor, você sempre soube que eu gostava de poesia e que tudo o que eu queria o tempo inteiro era a chance de uma vida ordenada: as coisas nos conformes, nossos segredos num cofre antigo com ferrolho enferrujado enterrado no fundo do quintal de casa: e ali, tanto de nossa lida, tanto de nossa presença no mundo, tanto de você em mim, tanto de mim em você, tanto dos outros na gente e nossas cartas verdes com letra dourada - este nosso capricho de adolescentes apaixonados sendo, já, dois homens maduros, ou quase. Ali, enterrado ali, para nutrir o nosso jardim. Para nutrir o jardim que não vingou depois. Para nutrir o jardim que não vingará jamais.
Quem de nós violou o cofre primeiro, não sei.
Quem de nós violou o cofre primeiro, não sei.
_
Maykson de Sousa.
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Quinta-feira
entre metáforas e montanhas...

entre metáforas e montanhas, enquanto olhava o mar
Agora eu sabia que era frio e que você não olhava para mim. Certamente, como eu, você ficava apenas me imaginando, imaginando, porque eu lhe imagino, imagino. Aprendi que hoje em dia metaphorá é uma palavra que também pode servir para dizer "transporte coletivo" na Grécia. Achei bonito. Gostei da ideia de andar pela cidade, em metáforas. Um dia ainda aprendo grego, nem que seja para dizer oi, tchau e bênção, te amo. Será que você pensa em metáforas enquanto pensa em mim como eu penso em metáforas enquanto penso em você? Tenho medo de que não me pense agora. Mas de qualquer modo, ouso a viagem. E que seja.
*
Um dia, quando as cãs prenunciarem o nosso desterro do mundo, bastará que a gente feche os olhos e deseje, deseje, deseje, com o todo, todo amor que tivemos, atravessar, sem pesar, o rio de Caronte.
E então subiremos à mais alta montanha ou pegaremos um avião e, lá de cima, fixaremos nossos olhos lá embaixo. E eu lhe direi, bem baixinho: a vida é bonita, meu amor. E você, com alguma felicidade assentirá com a cabeça e dirá que sim, que a vida é bonita mesmo quando faz muito frio e é preciso sair de cachecol na cidade que costuma receber um sol fortíssimo de 40° C, mesmo assim: mesmo olhada de cima, de longe, ao longe, como dos cimos dos montes, das montanhas, como a gente vê as pessoas pequenininhas do avião. E então eu olharei nos seus olhos e direi, num tom preciso: "Deus olha assim" - com um sorriso de canto. "Daqui de cima ninguém vê tropeços. Ninguém vê o rosto de ninguém. Só o movimento. Porque a vida é movimento. Sim, por-que-a-vi-da-é-mo-vi-men-to-por-que-as-pes-so-as-nas-ru-as-são-co-mo-os-gló-bu-los-ver-me-lhos-no-nos-so-san-gue. E então, alcançaremos o ponto mais alto e eu lhe mostrarei o que escrevi num papel, porque nesta hora nos importará, sobretudo, o silêncio:
só do alto se vê as linhas de Nazca, meu amor, só do alto. Nossa lida a gente avista do céu.
Depois fecharemos nossos olhos e nos abraçaremos bem forte. Assim o tempo passará bem rápido. Assim nós nos envelheceremos e, por fim, e depois, num estado profundíssimo de graça, transcenderemos."
-
Maykson de Sousa.
Tela de Caspar David Friedrich, Monk by the sea (1808-10).
E então subiremos à mais alta montanha ou pegaremos um avião e, lá de cima, fixaremos nossos olhos lá embaixo. E eu lhe direi, bem baixinho: a vida é bonita, meu amor. E você, com alguma felicidade assentirá com a cabeça e dirá que sim, que a vida é bonita mesmo quando faz muito frio e é preciso sair de cachecol na cidade que costuma receber um sol fortíssimo de 40° C, mesmo assim: mesmo olhada de cima, de longe, ao longe, como dos cimos dos montes, das montanhas, como a gente vê as pessoas pequenininhas do avião. E então eu olharei nos seus olhos e direi, num tom preciso: "Deus olha assim" - com um sorriso de canto. "Daqui de cima ninguém vê tropeços. Ninguém vê o rosto de ninguém. Só o movimento. Porque a vida é movimento. Sim, por-que-a-vi-da-é-mo-vi-men-to-por-que-as-pes-so-as-nas-ru-as-são-co-mo-os-gló-bu-los-ver-me-lhos-no-nos-so-san-gue. E então, alcançaremos o ponto mais alto e eu lhe mostrarei o que escrevi num papel, porque nesta hora nos importará, sobretudo, o silêncio:
só do alto se vê as linhas de Nazca, meu amor, só do alto. Nossa lida a gente avista do céu.
Depois fecharemos nossos olhos e nos abraçaremos bem forte. Assim o tempo passará bem rápido. Assim nós nos envelheceremos e, por fim, e depois, num estado profundíssimo de graça, transcenderemos."
-
Maykson de Sousa.
Tela de Caspar David Friedrich, Monk by the sea (1808-10).
Domingo
4 notas brevíssimas sobre a luz
4 notas brevíssimas sobre a luz
nota #1
o espelho
não faz sentido
no breu
ou:
a vida
não é possível
no escuro
nota #2
a sombra
é uma presença
sem peso
logo:
a vida
não é possível
no escuro
nota #3
mas a luz
em excesso
é morte
nota #4
a vida
só é possível
num chiaroscuro.
-
Maykson de Sousa. IN: http://cafemosaique.blogspot.com
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Terça-feira
ali verás, no lago

ali verás, no lago
Neste lago oblíquo
nonde tudo cintila
Tu és quem sou
e vens.
-
Maykson de Sousa. IN: http://cafemosaique.blogspot.com
Tela de Caravaggio. Narciso, de 1594-1596.
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Joris Ivens e Cortázar, neste dia chuvoso
aplastamiento de gotas
Yo no sé, mira, es terrible cómo llueve. Llueve todo el tiempo, afuera tupido y gris, aquí contra el balcón con goterones cuajados y duros, que hacen plaf y se aplastan como bofetadas uno detrás de otro, qué hastío. Ahora aparece una gotita en lo alto del marco de la ventana; se queda temblequeando contra el cielo que la triza en mil brillos apagados, va creciendo y se tambalea, ya va a caer y no se cae, todavía no se cae. Está prendida con todas las uñas, no quiere caerse y se la ve que se agarra con los dientes, mientras le crece la barriga; ya es una gotaza que cuelga majestuosa, y de pronto zup, ahí va, plaf, deshecha, nada, una viscosidad en el mármol.
Pero las hay que se suicidan y se entregan enseguida, brotan en el marco y ahí mismo se tiran; me parece ver la vibración del salto, sus piernitas desprendiéndose y el grito que las emborracha en esa nada del caer y aniquilarse. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adiós gotas. Adiós.
Pero las hay que se suicidan y se entregan enseguida, brotan en el marco y ahí mismo se tiran; me parece ver la vibración del salto, sus piernitas desprendiéndose y el grito que las emborracha en esa nada del caer y aniquilarse. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adiós gotas. Adiós.
-
Curta-metragem de Joris Ivens. Regen (Chuva), de 1929. Micronarrativa de Julio Cortázar.
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Sábado
O amor dos loucos, de Rafael Courtoisie
o amor dos loucos

Um louco é alguém que está despido da mente. Alguém que se livrou de suas roupas invisíveis, destas que turvam e desviam a realidade. Os loucos têm uma impudicícia que vem a ser fragilidade e, em ocasiões, beleza. Andam sozinhos, como qualquer pessoa nua e, com frequência, também falam sozinhos (Quem fala sozinho espera falar com Deus, um dia).
Mais difícil que proteger um corpo nu é proteger um pensamento. Os loucos têm pensamentos que oscilam, pensamentos ósseos, tão duros quanto a pedra em torno da qual giram como se a ela estivessem atados por uma corrente de ferro de ideias.
O cérebro de um pássaro não pesa mais que alguns gramas, e a parte que modula o seu canto é de um tamanho muito inferior à cabeça de um alfinete, um infinitésimo pedacinho de tecido, de matéria biológica que, com certa inquietação, os sábios esquadrinham no microscópio para decifrar de que maneira, em tão exíguo retalho, está escrita a partitura.
Mas desde muito antes, e sem a necessidade de microscópio e colorações, o louco sabe que o canto do pássaro é imenso e pesado, é puro chumbo que perfura ossos, que se mete no sonho, que derruba qualquer teto sem que haja cimento ou viga que possa sustentar a sua pujança, o seu tamanho possível. Por isso alguns loucos se despertam antes que amanheça e tapam seus ouvidos com a própria voz, com as vozes que suam de dentro de suas cabeças.
Os pensamentos do louco são carne viva, são carne sem pele. No deserto de seu pensamento o pássaro é um sol implacável. O canto cai como se fosse uma luz e um calor que bicasse a sua carne em absoluta nudez.
Mas a nudez do louco é íntima: de tanto exibi-la, fica dentro. É condição interior, passa despercebida às legiões de sóbrios que têm a alma coberta por tecidos grosseiros, espessos, trançados pelo fio do costume.
O único instrumento possível para o louco, para defender a sua nudez, é o amor.
O amor dos loucos é uma veste transparente. Aqueles olhos vítreos e aquele fio ambarino que urinam pelas noites, aquele fragor e aquele sentimento copioso e múltiplo que não alteram as benzodiazepinas, que não diminuem o Valium, permanecem intactos no louco por arte do amor.
É martelo, é colher, é punção. É tudo menos uma veste, não cobre, senão atravessa, não mitiga, senão exalta. O amor dos loucos tem uma textura, um porte e uma substância.
A substância é semelhante ao vidro, mas é o vidro de uma garrafa quebrada.
-
Rafael Courtoisie. El amor de los locos. in: Palabras de la noche. Caracas: Monte Ávila, 2006. p. 99. (Trad.: Maykson de Sousa).
Fotografia da série Ensaio para a loucura, de gUI Mohallem.
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Sexta-feira
Quinta-feira
ao longe o mar
ao longe o mar
Este poema é arcaico. Nele não cabem
as palavras ‘facebook’, ‘celular’ e, sequer,
‘telefone’. Cabe a palavra ‘coita’, das cantigas
d'amigo, das cantigas d’amor. Cabe a palavra
‘espera’. Cabe a palavra ‘saudade’, lida sussurrada
e pausadamente: ‘SAU-DA-DE’. Cabe a figura
de um navio ao longe, como um sonho,
para mim que estou como um eremita num deserto
de sal e pondero: — Isso aqui já foi mar.
-
Maykson de Sousa.
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Domingo
nota para um domingo
nota para um domingo
Voltei a falar com o meu menino, e a verdade é que isto me cura. Ele zomba da minha cara de homem, depois me abraça e, curiosamente, me chama de pai, roçando a minha barba mal feita. Você cresceu, eu lhe digo, e ele me olha em silêncio: eu cresci. (Minha memória desdobra-se... desdobro-me).
Abraço o meu menino e canto, p'ra fazê-lo dormir. Tudo está tranquilo. Posso prosseguir, sem medo:
Agora, o meu menino sonha.
-
Maykson de Sousa.
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"Comprendió que el empeño de modelar la materia incoherente y vertiginosa de que se componen los sueños es el más arduo que puede acometer un varón, aunque penetre todos los enigmas del orden superior y del inferior: mucho más arduo que tejer una cuerda de arena o que amonedar el viento sin cara." - J. L. Borges..
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“Conhecer uma língua ajudaria bastante a me curar da que falo. Daquefalo! Qualquer língua ao final é Deus falando, por isso nos escapa tanto, só se mostra ao desfocado olhar da poesia, à sua densa névoa, quando tudo suspende ao juízo e apenas cintila, em vapores d’água, orvalho, vultos movendo-se em neblina. Você pressente e teme porque a beleza é viva e te olha. Chama pelo nome ao que a procura. Eu quero falar, falar até entender, até ser perdoada, até ser transformada. No céu tem conversa? Eu preciso falar, é minha necessidade mais primeira, porque amo silêncios e o mistério, que me derrota e me salva. [...] Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar” — Adélia Prado.
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"El cerebro de los pájaros no pesa más que algunos gramos, y la parte que modula el canto es de un tamaño mucho menor que una cabeza de alfiler, un infinitésimo trocillo de tejido, de mataria biológica que, con cierto aburrimiento, los sabios escrutan al microscopio para descifrar de qué manera, en tan exiguo retazo, está escrita la partitura. Pero desde mucho antes, y sin necesidad de microscopio ni de tinciones, el loco sabe que el canto del pájaro es inmenso y pesado, plomo puro que taladra huesos, que se mete en el sueño, que desfonda cualquier techo y no hay cemento ni viga que pueda sostener su hartura, su tamaño posible. Por eso algunos locos despiertan antes de que amanezca y se tapan los oídos con su propia voz, con voces que sudan de adentro, de la cabeza." - R. Courtoisie.



